Crítica — Hamlet no Copan: montagem visceral transforma clássico de Shakespeare em experiência imersiva no Nu Cine Copan
Assistir a Hamlet é sempre um encontro com uma das maiores tragédias da história do teatro. Mas assistir Hamlet dentro do Copan, em um espaço em ruínas que renasce para a cultura, transforma completamente essa experiência. Em cartaz no NuCine Copan, a montagem dirigida por Rafael Gomes traz Gabriel Leone no papel-título e propõe uma leitura contemporânea, energética e visceral do clássico de William Shakespeare, uma encenação que aproxima o público da tragédia de forma quase física.
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| Gabriel Leone e elenco de Hamlet - Créditos: Rafael Toledo dos Santos |
A influenciadora e criadora de conteúdo cultural Mona Ácida esteve presente na sessão VIP da peça, que reuniu diversos nomes conhecidos da cena cultural brasileira, entre eles Marisa Orth, Vladimir Brichta, Alice Carvalho e Anna Akisue, reforçando o caráter de acontecimento cultural que envolve esta produção.
Mais do que uma simples montagem teatral, Hamlet no Copan se torna uma experiência artística completa ao ocupar um espaço carregado de história e significado.
O NuCine Copan e a retomada de um espaço histórico para a cultura
O espetáculo acontece no NuCine Copan, localizado dentro do icônico Edifício Copan, um dos marcos arquitetônicos mais famosos de São Paulo. O local, que originalmente funcionava como cinema, passou anos sendo utilizado como igreja e agora retorna gradualmente ao seu propósito cultural.
Atualmente, o espaço está literalmente em obras e a montagem de Hamlet utiliza essa condição de maneira criativa. Antes da reinauguração oficial do cinema prevista para 2027, o local funciona temporariamente como teatro, recebendo projetos que exploram suas possibilidades cênicas.
Essa ocupação artística já faz parte de uma retomada importante para a cena cultural paulistana. Ver o espaço novamente tomado por arte, público e experimentação teatral é um sinal de renovação para o audiovisual e para o teatro brasileiro.
Existe ali uma energia muito particular: algo que lembra o espírito do Teatro Oficina, com seu caráter experimental e aberto a múltiplas linguagens. O espaço não impõe limites rígidos ao espetáculo; pelo contrário, convida artistas a explorar novas formas de encenação.
E é exatamente isso que esta montagem faz.
Uma encenação que transforma ruína em dramaturgia
Um dos aspectos mais interessantes desta produção é a maneira como a própria arquitetura do espaço se torna parte da narrativa.
O NuCine Copan, ainda em processo de restauração, apresenta paredes descascadas, estruturas aparentes e um ambiente bruto que cria uma atmosfera naturalmente dramática. Em vez de esconder essas marcas, a direção de Rafael Gomes as incorpora à dramaturgia.
A ruína arquitetônica vira cenário.
Essa escolha estética cria um diálogo poderoso entre o texto clássico e o espaço urbano contemporâneo. Hamlet, personagem marcado por dúvidas, conflitos internos e tensões políticas, passa a habitar um ambiente igualmente fragmentado.
O resultado é uma experiência imersiva: o público não apenas assiste à peça, mas sente que está dentro dela.
A proximidade física com os atores reforça essa sensação. Em diversos momentos, os espectadores estão literalmente olho no olho com Hamlet, compartilhando o mesmo espaço emocional que o personagem.
Gabriel Leone entrega um Hamlet intenso e profundamente humano
Se o espaço contribui para a potência da montagem, o grande eixo emocional do espetáculo está na interpretação de Gabriel Leone.
Conhecido por seus trabalhos no audiovisual, incluindo o filme O Agente Secreto, o ator assume o desafio de interpretar um dos personagens mais complexos da dramaturgia universal.
E entrega uma performance impressionante.
Seu Hamlet é intenso, mas contido. Em vez de exageros dramáticos, Leone constrói um personagem profundamente humano, marcado por inquietação interna e tensão constante.
A famosa dúvida existencial, “ser ou não ser”, ganha aqui uma dimensão quase física. Não se trata apenas de filosofia, mas de ação, de movimento, de escolhas inevitáveis.
A proximidade do público amplifica ainda mais essa interpretação. Cada gesto, cada silêncio e cada olhar ganham peso dramático.
Leone sustenta o espetáculo com segurança, mas também conta com o apoio de um elenco sólido que ajuda a construir a atmosfera trágica da obra.
Direção precisa e atmosfera construída pela luz
A direção de Rafael Gomes demonstra grande controle sobre o ritmo da montagem. O espetáculo mantém uma energia constante, equilibrando momentos de tensão dramática com pausas que permitem ao público absorver as emoções da narrativa.
Outro destaque importante é o desenho de luz, que constrói a atmosfera da peça com precisão e sem excessos. Em um espaço já carregado visualmente pela arquitetura crua do teatro, a iluminação funciona como um elemento narrativo essencial.
Ela direciona o olhar do espectador, cria tensão e ajuda a transformar o ambiente em diferentes espaços dramáticos ao longo da peça.
Essa economia estética funciona muito bem. Nada parece supérfluo, tudo contribui para a intensidade da experiência.
Figurinos de Alexandre Herchcovitch trazem contemporaneidade à tragédia
O figurino assinado por Alexandre Herchcovitch também merece destaque. Conhecido por sua trajetória na moda, o estilista traz uma abordagem contemporânea que dialoga com a estética urbana da montagem.
As roupas não tentam reproduzir um período histórico específico. Em vez disso, funcionam como uma ponte entre o clássico e o presente.
Essa escolha reforça a ideia de que Hamlet é uma tragédia atemporal. A história de poder, traição, vingança e dilemas morais continua relevante séculos depois de ter sido escrita.
Os figurinos ajudam a atualizar a narrativa sem descaracterizar seu peso trágico.
Shakespeare no coração de São Paulo
Existe algo particularmente simbólico em assistir Hamlet dentro do Copan.
O edifício, projetado por Oscar Niemeyer, é uma pequena cidade vertical, cheia de fluxos, histórias e vidas acontecendo simultaneamente. Enquanto pessoas entram e saem do prédio, trabalham, moram e circulam, Hamlet permanece ali, suspenso em sua dúvida existencial.
Esse contraste entre a tragédia clássica e o cotidiano urbano cria uma camada adicional de significado.
No concreto modernista do Copan, a pergunta “ser ou não ser” ecoa de forma diferente.
Talvez mais contemporânea.
Talvez mais urgente.
Vale a pena assistir Hamlet no Copan?
Sem dúvida.
A montagem de Hamlet no Copan é uma das experiências teatrais mais interessantes em cartaz atualmente em São Paulo. Não apenas pela qualidade artística do espetáculo, mas também pelo contexto em que ele acontece.
Assistir à peça é participar de um momento importante da retomada cultural de um espaço histórico da cidade.
A encenação entrega uma leitura potente do texto de Shakespeare, com direção precisa, figurinos marcantes e uma performance central muito forte de Gabriel Leone.
Mas o que realmente torna essa experiência especial é o encontro entre obra, espaço e público.
A tragédia é antiga.
A dúvida é contemporânea.
E talvez seja justamente por isso que Hamlet continua fazendo tanto sentido, especialmente aqui, no coração do Copan.
Por Caroline Soares
Serviço
Hamlet no Copan
Local: NuCine Copan – São Paulo
Temporada: 19 de fevereiro a 19 de abril
Esse conteúdo faz parte do projeto Mona Cultural e conta com o apoio de Dicas do Dia e CareUp

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