Estrelado por Gabriel Leone, “Hamlet, sonhos que virão” ocupa o Nu Cine Copan e transforma ruína arquitetônica em dramaturgia

Escrita entre 1599 e 1601 pelo britânico William Shakespeare, “Hamlet” é considerada a obra mais célebre da dramaturgia ocidental. A tragédia acompanha o príncipe da Dinamarca confrontado com o assassinato do pai, a ascensão ao trono de um tio usurpador e um mundo moralmente corrompido, no qual agir parece tão impossível quanto não agir. Ao longo da peça, Shakespeare constrói um retrato radical da dúvida, da crise de sentido e do conflito entre desejo, poder e responsabilidade — temas que atravessam mais de quatro séculos de história e seguem interpelando o presente.

Gabriel Leone - Créditos: Bob Wolfenson

É esse clássico que retorna à cena paulistana em Hamlet, sonhos que virão, uma adaptação inédita e contemporânea, com direção de Rafael Gomes e com Gabriel Leone no papel-título. A montagem desloca o teatro para fora do teatro, ocupa o canteiro de obras do Nu Cine Copan (desativado há décadas e atualmente em reforma para ser devolvido à cidade como um cinema de última geração, que será entregue à população em 2027) e oferece ao público uma experiência ‘site specific’ única, transformando o próprio edifício — suspenso entre abandono e reconstrução — no centro da dramaturgia.

Mais do que um cenário, a ruína arquitetônica torna-se linguagem. Em vez da tradicional caixa preta, a montagem inverte a lógica do espaço: a plateia, com cerca de 350 pessoas, ocupa a área onde antes ficavam a tela e o palco do cinema, enquanto a ação se desenrola no antigo espaço da plateia, criando um palco monumental. O público assiste à tragédia de Hamlet dentro de um corpo arquitetônico marcado por camadas de memória urbana, uso e desgaste do tempo.

“Hamlet fala de um mundo que ruiu, de estruturas que já não se sustentam”, afirma Rafael Gomes. “Encenar a peça em um edifício em ruínas não é um efeito estético, é uma tomada de posição. A ruína é o próprio estado do drama.”


Um clássico em estado de crise

Na tragédia de Shakespeare, Hamlet é um jovem deslocado em um mundo que já não reconhece. Incapaz de aderir plenamente às regras da corte e igualmente incapaz de se retirar da ação, ele vive paralisado entre o desejo de justiça e a impossibilidade de agir sem se corromper. Em Hamlet, Sonhos que virão, essa crise existencial encontra eco direto no espaço que abriga a encenação: um edifício em suspensão, à espera de um novo destino.

A adaptação é assinada por Rafael Gomes e Bernardo Marinho e propõe deslocamentos internos no texto, incluindo a reorganização de alguns solilóquios e centrando o foco do drama no enigma do desejo e nas personagens consumidas por impasses internos e pelo transbordamento de suas paixões. A montagem parte da tradução de Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harrington, conhecida por sua linguagem direta e contemporânea, aproximando o texto do espectador de hoje.


Gabriel Leone como Hamlet

No papel do príncipe da Dinamarca, Gabriel Leone assume um dos personagens mais emblemáticos da história do teatro em um momento decisivo de sua trajetória artística, vindo de grandes protagonistas no audiovisual, como nas séries "Dom” e “Senna”. Entre as muitas facetas de um personagem exaustivamente estudado e analisado, ele elege a essência humana como cerne de sua interpretação: “Me interessa o Hamlet humano, no sentido da complexidade, e isso engloba todas as suas possibilidades, é obrigatório surfar entre elas. Interpretá-lo é colocar um espelho na frente da plateia, Hamlet é essa espécie de homem espelho”, diz o ator. “Ele se questiona o tempo todo, se sente deslocado, incapaz de se encaixar. É um personagem muito ligado ao nosso tempo, à ansiedade, à sensação de não pertencimento.”


Um elenco à altura do desafio

Para dar conta do duplo desafio da encenação (dramaturgia exigente e espaço cênico grandioso), o elenco é formado por um grupo de profissionais experientes, com vasta ficha de serviços destacados no teatro, cinema e televisão, como Eucir de Souza (Rei Cláudio), Susana Ribeiro (Gertrudes) e Fafá Renó (Polônio). Junto a eles, um coletivo de atores jovens, dos quais muitos já ostentam experiência e repercussão, como Samya Pascotto (Ofélia), Felipe Frazão (Horácio e Hamlet alternante), Bruno Lourenço (Laertes), Rael Barja (Rosencrantz/ Coveiro), Daniel Haidar (Guildenstern/ Coveiro) e Davi Novaes (Marcelo/ Osric). E, por fim, talentos promissores como Giovanna Barros (ensemble), Lua Dahora (ensemble) e Conrado Costa (ensemble). 


Ficha técnica de destaque

A montagem reúne também uma ficha técnica estrelada. Além do cenógrafo André Cortez e do iluminador Wagner Antonio, colaboradores de longa data do diretor, os figurinos são assinados por Alexandre Herchcovitch, dialogando com a sobreposição de tempos históricos proposta pela encenação. A trilha sonora original é de Barulhista e Antonio Pinto, criando uma atmosfera sonora que reforça a dramaturgia arquitetônica e a sensação de instabilidade e suspensão. As imagens de divulgação são de Bob Wolfenson, que registra o encontro entre corpos, arquitetura e ruína.


Um gesto urbano e cultural

Após a temporada de Hamlet, Sonhos que virão, o NuCine Copan entrará em obras e será devolvido à cidade em 2027 como um equipamento cultural, abrigando um cinema de grandes dimensões, com tecnologia de última geração. O espetáculo marca, assim, um momento histórico e limiar: a última grande ocupação artística do espaço antes de sua transformação definitiva.

“Existe algo de muito potente em habitar esse lugar exatamente agora, neste intervalo entre o que foi e o que ainda vai ser”, afirma Rafael Gomes. “O espetáculo acontece nesse estado de passagem. São, também, os sonhos que virão.”


Hamlet para o presente

Ao longo de mais de quatro séculos, “Hamlet” tem sido continuamente revisitado porque fala de crises que não cessam: crises de poder, de desejo, de pertencimento e de sentido. Em Hamlet, Sonhos que virão, o clássico encontra um espaço à sua altura — um edifício em ruínas que, assim como o protagonista, não pertence mais inteiramente ao passado nem ainda ao futuro.

A partir de 19 de fevereiro, o público é convidado a atravessar esse território instável, onde dramaturgia, arquitetura e história da cidade se encontram, e onde Shakespeare volta a falar diretamente a plateias do presente.

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HAMLET, SONHOS QUE VIRÃO

de William Shakespeare 

Direção: Rafael Gomes

Adaptação: Bernardo Marinho e Rafael Gomes

Tradução: Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harington

Elenco: Gabriel Leone, Susana Ribeiro, Eucir de Souza, Samya Pascotto, Fafá Renó, Bruno Lourenço, Daniel Haidar, Felipe Frazão, Rael Barja, Davi Novaes, Conrado Costa, Giovanna Barros e Lua Dahora

Cenografia: André Cortez

Iluminação: Wagner Antônio

Figurino: Alexandre Herchcovitch

VIsagismo: Pamela Franco

Trilha Sonora: Barulhista e Antonio Pinto

Design de som: Gabriel D’Angelo e Fernando Wada

Fotografias: Bob Wolfenson

Design Gráfico: Izabel Menezes

Diretor Assistente: Victor Mendes

Direção de Movimento: Fabrício Licursi 

Direção de produção: Rafael Rosi

Coordenação de Produção: Luciana Fávero

Produtores associados: Gabriel Leone e Samya Pascotto

Produtor Executivo: Diogo Pasquim

Produção: Art’n Company, Substância Filmes e Viva do Brasil

 Patrocínio master: Nubank

Patrocínio: Casa Almeida e Ibar


SERVIÇO

Sinopse: Após a morte do rei da Dinamarca, o príncipe Hamlet vê seu tio assumir o trono e casar-se com sua mãe. Suspeitando das circunstâncias da morte do pai, Hamlet decide fingir loucura para investigar a verdade e testar os limites do poder, das paixões humanas e da própria razão.


Temporada: 19 de fevereiro a 19 de abril


Local: Nu Cine Copan (Av. Ipiranga, 200 – Centro – São Paulo/SP)

Entrada pela Galeria do Copan


Horários: Quartas, 20h | Quintas, 20h30 | Sexta, 20h | Sábados, 16h e 20h | Domingos, 17h 


Ingressos: de R$25,00 a R$200,00

Vendas online: nucinecopan.byinti.com

Bilheteria física: no local 2h antes da sessão.


Duração: 2h15 minutos (sem intervalo)

Capacidade: 345 lugares

Classificação indicativa: 14 anos


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GABRIEL LEONE

Um dos mais destacados e reconhecidos atores da nova geração, soma papeis marcantes no audiovisual e no teatro. Na TV, esteve em “Verdades Secretas”, “Velho Chico”, “Os Dias Eram Assim”, “Onde Nascem os Fortes” e “Um Lugar ao Sol”, todas na Rede Globo. Protagonizou três temporadas da série “Dom”, no Amazon Prime Video, sucesso internacional pelo qual acumulou indicações a prêmios. No teatro, foi indicado ao prêmio Shell SP pelo musical “Natasha, Pierre e o Cometa de 1812”. No cinema, interpretou o papel título em “Eduardo e Mônica” (2021) uma das maiores bilheterias do ano, pela qual venceu o prêmio APCA de melhor ator. Esteve também em “Meu Álbum de Amores” e “Rio do Desejo”, entre outros.

Em 2023, lançou seu primeiro grande papel internacional, no filme “Ferrari”, de Michael Mann, contracenando com Penélope Cruz e Adam Driver. Em 2024, protagonizou a minissérie “Senna”, a maior produção brasileira da Netflix, sobre a vida do piloto Ayrton Senna. Em 2025, participou do sucesso “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, vencedor do Globo de Ouro e indicado a quatro Oscar. Em 2026, estreia a nova temporada da série inglesa "Citadel" (Amazon Prime Video) e protagoniza a minissérie "Véspera” (HBO Max), adaptação do best-seller de Carla Madeira.


RAFAEL GOMES

Estreou na autoria e direção teatral com o espetáculo “Música para Cortar os Pulsos” (2010), vencedor do prêmio da APCA de Melhor Peça Jovem. Como dramaturgo, assinou os espetáculos “Edukators” (2013), “Talvez uma História de Amor” (2013), os infantis “Mas Por Quê – a História de Elvis” (2015 – Prêmio APCA de Melhor Musical Infantil) e “Lá Dentro Tem Coisa”, e o solo “Eu de Você”, de Denise Fraga.  Na companhia Empório de Teatro Sortido, assinou a direção e adaptação de “O Convidado Surpresa” (2014); dirigiu “Gotas d’água Sobre Pedras Escaldantes” (2014), de Rainer W. Fassbinder [três indicações ao Prêmio Shell SP]; co-dirigiu “Não Nem Nada” (2014), de Vinicius Calderoni [duas indicações ao prêmio Shell SP]; e dirigiu “Os Arqueólogos” (2016), de Vinicius Calderoni [Prêmio APCA de Melhor Autor].  Consagrou-se com a direção de “Um Bonde Chamado Desejo” (2015), protagonizada por Maria Luisa Mendonça e Eduardo Moscovis [Prêmio Shell SP – Melhor Direção, Atriz e Cenário; prêmio APTR – Melhor Produção; prêmios APCA, Aplauso Brasil e Arte Qualidade Brasil - Melhor Atriz], antes de adaptar e dirigir “Gota d’água [a Seco]” (2016), uma releitura do musical de Chico Buarque e Paulo Pontes, protagonizada por Laila Garin [prêmios Cesgranrio, Bibi Ferreira, Aplauso Brasil, indicações ao Shell, APTR, APCA, entre outros]. 

Seus espetáculos mais recentes foram a estreia brasileira de "Shakespeare Apaixonado” (2024), com Rodrigo Simas, Carla Salle e Ana Lúcia Torre; e o musical original "Nossa História com Chico Buarque” (2024), que celebrou 80 anos do compositor com temporadas esgotadas e aclamação crítica.  No audiovisual, Rafael escreveu e dirigiu quatro longas-metragens de ficção (“45 Dias Sem Você”, “Música Para Morrer de Amor”, “Meu Álbum de Amores” e “Amigos Sem Compromisso”), e roteirizou mais de 90 episódios de séries em diferentes formatos. Trabalhou ainda com projetos musicais diversos, com artistas como Gal Costa, Arnaldo Antunes, Pato Fu, Marcelo Camelo, entre outros. 


A COMPANHIA

Fundada em 2010 por Rafael Gomes e Vinicius Calderoni, a Empório de Teatro Sortido consolidou-se como um coletivo de autores-encenadores voltado à criação de dramaturgia própria e releituras de textos clássicos. Em 15 anos de atuação, estreou 10 espetáculos que conquistaram crítica e público, especialmente entre plateias jovens, fortalecendo a formação de novos espectadores. Entre as produções de destaque estão “Música para cortar os pulsos” (Prêmio APCA 2010 – Melhor Peça Jovem), “Um bonde chamado Desejo” (Prêmio Shell SP – Melhor Direção, Atriz e Cenário), “Os arqueólogos” (Prêmio APCA – Melhor Autor) e a Trilogia Placas Tectônicas, contendo as peças “Não Nem Nada”, “Ãrrã” (Prêmio Shell – Melhor Autor) e “Chorume”.


Esse conteúdo faz parte do projeto Mona Cultural e conta com o apoio de Dicas do Dia e CareUp

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