Crítica: “GIL - Andar Com Fé” Transforma o Tempo em Arte no Teatro Santander

O teatro musical brasileiro vive uma era de maturidade estética e narrativa sem precedentes. A influenciadora e crítica cultural Mona Ácida (Caroline Soares) teve o privilégio de acompanhar de perto todo o processo de construção de GIL - Andar Com Fé. Desde as primeiras divulgações, passando pela coletiva de imprensa e até a emocionante sessão "italiana", o marcante momento do ensaio em que o elenco se reúne pela primeira vez para cantar junto à orquestra completa, Mona vivenciou os bastidores até a sessão para convidados que contou com a presença ilustre de Gilberto Gil, o grande homenageado da noite. O resultado visto no palco do Teatro Santander é uma superprodução de altíssima qualidade, com nível de excelência perfeitamente alinhado às maiores montagens do país.

Créditos: Felipe Menezes


A Dramaturgia Espiral e o Conceito de Tempo-Rei

Em vez de apostar em uma estrutura biográfica linear e didática, a dramaturgia assinada por Newton Moreno constrói uma narrativa espiral. A peça vai e volta no tempo, mantendo a plateia completamente intrigada do início ao fim. A concepção apoia-se na visão iorubá de temporalidade, onde passado, presente e futuro coexistem e se entrelaçam continuamente.

Guiada pelo personagem Tempo-Rei, interpretado com presença marcante pelo músico baiano Guga Barbosa, a encenação viaja pelos momentos mais emblemáticos da trajetória de Gilberto Gil:

As Origens: A infância em Ituaçu, as lições da avó Lydia e o incentivo fundamental de seus pais e da irmã Gildina.

A Revolução Musical: A eclosão da Tropicália ao lado de parceiros de vida, como Caetano Veloso.

A Resistência: As tensões políticas no período da ditadura militar, a prisão e o doloroso exílio em Londres.

O Retorno e a Plenitude: A reconexão com o Brasil, a maturidade artística e a força das relações afetivas, destacando a presença de Flora Gil e a visceralidade da paternidade expressa por Preta Gil.

As canções do repertório — que incluem clássicos como "Aquele Abraço", "London, London", "Drão", "Palco" e "Vamos Fugir" — não atuam como meros números de transição. Elas conduzem a espinha dorsal dramática, articulando a bossa nova, o baião, o afoxé e o rock tropicalista.


Artes Visuais em Cena: De Lygia Clark a Gabriel Wickbold

Um dos aspectos mais impressionantes da produção é a concepção dos cenários. Projetada por Natália Lana, a cenografia oferece uma profundidade espacial notável, expandindo o alcance poético da história.

A direção de arte buscou inspiração nas obras e nos conceitos neoconcretos de Lygia Clark, trazendo formas geométricas e dinâmicas para o palco. A grande surpresa visual fica reservada para a reta final do espetáculo: o cenário recebe uma obra exclusiva criada pelo renomado fotógrafo e artista visual Gabriel Wickbold, inspirada na linguagem autoral de seu projeto "I am light". O impacto estético é imediato e consolida a integração entre as artes plásticas e o teatro de grande porte.


O Corpo que Dança: A Especialização do Elenco e a Direção de Movimento

Outro grande diferencial do espetáculo reside na divisão técnica do seu numeroso elenco. Enquanto as produções tradicionais costumam exigir que todos os atores desempenhem funções idênticas de canto e dança, a direção associada de Bárbara Guerra e a direção geral de Miguel Falabella apostaram em um desenho mais especializado.

Uma parcela substancial do elenco foi selecionada estrategicamente para o núcleo coreográfico. Composta por bailarinos e especialistas em dança, essa escolha se traduz em uma qualidade de movimento corporal excepcional no palco. Sob o comando coreográfico de Leilane Teles e Tiago Dias, a expressividade física do ensemble chega à plateia com precisão impecável e energia contagiante.


Gui Ventura: Uma Performance Intensa e Fiel

A escolha do protagonista é o coração batente da montagem. O ator, cantor e compositor mineiro Gui Ventura entrega uma atuação irretocável no papel de Gilberto Gil.

Além da impressionante semelhança física com o homenageado em diferentes etapas de sua vida, Gui Ventura domina os recursos vocais e instrumentais exigidos pela obra. Ele canta com afino, toca violão com fluidez e transita entre os estados emocionais da juventude e da maturidade com extrema naturalidade. É uma atuação digna da dimensão artística de Gilberto Gil.


O elenco principal também se destaca pela forte coesão em cena:

Henrique Zamith constrói um Caetano Veloso afetuoso e expressivo, traduzindo a cumplicidade da dupla dentro e fora do palco.

Bel Lima traz elegância e doçura na interpretação de Flora Gil, simbolizando o porto seguro da fase mais serena do artista.


Considerações Finais: Uma Estrela Brilhante na Temporada

GIL – Andar Com Fé é uma excelente biografia na cena do teatro musical brasileiro, o espetáculo impressiona por sua beleza plástica, sofisticação sonora e pelo rigor técnico visível em cada detalhe. A condução precisa da direção de Bárbara Guerra e Miguel Falabella garante um ritmo dinâmico que emociona, provoca reflexão e celebra a brasilidade sem cair em clichês.

Acompanhar a evolução deste projeto desde o calor da sessão "italiana" até o espetáculo pronto no palco do Teatro Santander confirma o quanto a produção refinou sua entrega. Trata-se de uma obra linda, vibrante e muito bem dirigida, que promete ser um dos destaques da temporada teatral brasileira. Uma experiência imperdível para amantes da arte, da música e da cultura nacional.


Ficha Técnica e Ficha de Produção:

Texto: Newton Moreno

Direção: Miguel Falabella

Direção Associada: Bárbara Guerra

Direção Musical e Arranjos: Thiago Gimenes, Tiago Saul e Ivan de Andrade

Coreografia: Leilane Teles e Tiago Dias

Cenografia: Natália Lana

Design de Som: Tocko Michellazo

Iluminação: Wagner Pinto

Figurino: Marco Pacheco e Jemima Tuany

Visagismo: Dicko Lorenzo

Identidade Visual e Cenário Convidado: Gabriel Wickbold

Produção de Elenco: Giselle Lima

Realização: Atual Produções e Aurora Produções


Elenco Principal: Gui Ventura (Gilberto Gil), Guga Barbosa (Tempo-Rei), Henrique Zamith (Caetano Veloso), Bel Lima (Flora Gil).


Ensemble e Swings: Mariel, Luci Saluzzi, Calu Manhães, Pamella Machado, Letícia, Maria Antônia Ibraim, Chico Rubens, Jesus Jadh, Ofà Lówò, Maurício Reducino, Analuhh, Juliana Teixeira, Ygor Zago, Bia Vasconcellos, VEHTZ, Lubo, Paula Miessa, Vinícius Loyola, Natália Antunes, Thiago Alves, Vitor Vieira, Joyce Cosmo, Ágata Matos, Antonia Medeiros, Jeison Lopes, Moira Osório, Mari Saraiva, Tiago Dias, Pedro Arrais e Romes Pinheiro.


Guia do Espectador: Serviço Completo

Espetáculo: GIL – Andar Com Fé

Temporada: A partir de 20 de agosto de 2026

Local: Teatro Santander (Complexo JK Iguatemi — Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041, São Paulo/SP)

Horários: Quintas e sextas, às 20h; sábados, às 16h e 20h; domingos, às 15h e 19h

Duração: 2 horas e 20 minutos (com intervalo de 15 minutos)

Classificação Indicativa: 12 anos

Ingressos: Vendas online via Sympla ou na bilheteria oficial do Teatro Santander (sem taxa de conveniência no totem 24h)

Preços: Entre R$ 25,00 (meia-entrada balcão) e R$ 400,00 (inteira VIP)

Acessibilidade: Todas as sessões contam com audiodescrição e interpretação em Libras


Este conteúdo faz parte do projeto Mona Cultural e conta com o apoio de Dicas do Dia e CareUp.

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